Ainda não sei o que é, mas algo em você me chamou a atenção. Talvez seja porque encontrei um pouco desse vazio meu em você. Talvez porque você vê o mundo do mesmo jeito bagunçado, falso, sujo que eu. Você procura distrações, procura se sedar, tenta matar o agora. Você sabe que o amanhã não existe. Talvez porque eu olhei para você e vi que você estava olhando para mim, como se conseguisse mesmo me ver. Talvez seja porque o meu nada, somado ao seu nada, possa ser alguma coisa.
sábado, 31 de março de 2012
Acordou sem ter certeza de onde estava. Olhou para o relógio na parede rabiscada com palavras obscenas. Cinco da manhã. A noite anterior era apenas fragmentos em sua memória. A última lembrança concreta era de ter tomado algumas pílulas. Depois disso, era apenas estupor. Ela sabia que havia rido, que havia visitado um lugar surreal, que havia se libertado do vazio por algumas horas. O resto não importava.
Observou ao seu redor mais uma vez, tentando reconhecer o quarto estranho. A parede pichada contrastava com os móveis de estilo clássico e madeira colonial, empoeirados como se tivessem sido abandonados no mesmo lugar há dois séculos. Os lençóis abarrotados sob a cama de ferro denunciavam seu uso. No carpete bege, um pó branco dava pistas do que havia acontecido na noite anterior. Ela olhou para o espelho rachado na penteadeira. Uma garota pálida, com olhos e cabelos muito negros a encarou com uma expressão assustada. Ligeiramente corrigiu a expressão. Era muito cedo para parecer tão fraca.
Postado por cl às 10:30 0 comentários
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