Ela gostava de brincar com palavras, como se houvesse um grande segredo oculto entre elas, apenas aguardando ser decifrado por quem se atrevesse o suficiente. Ela passava muito tempo sozinha em seu quarto, e não tinha muitos amigos. Vivia em companhia de seus livros, seus discos e seus sonhos.
Era capaz de passar horas em cima de livros, vivenciando narrativas de lugares longínquos e tempos há muito passados. Com seus discos, ela entrava em um mundo que os livros não lhe proporcionavam. Era um mundo completamente diferente, ao avesso - nada fazia sentindo, era apenas a musicalidade e a emoção da palavra. Tudo ali era uma questão de sensibilidade, de apreciação da loucura alheia.
Com seus sonhos, porém, a história era diferente. Seus sonhos não eram uma distração, mas sim uma forma de construção - de autoconstrução. Com seus sonhos ela descrevia olhares perdidos e palavras não ditas. Com seus sonhos ela inventava sua própria realidade - uma realidade cheia de cores, amores, fantasias e heroísmos. E ela escrevia. Não sabia explicar o que vinha primeiro, os sonhos ou as palavras. Só sabia que a cada palavra escrita, um novo pensamento parecia desabrochar dela. E, a cada pensamento, uma nova palavra. As palavras uniam-se ao pensamento e o sentido surgia. Era assim que uma nova história florescia, fluente, constante. Suas fantasias guiavam seu mundo, dentro e fora de sua mente. Era um mundo criado por ela mesma, porém não necessariamente falso. Mundo falso, para ela, era um mundo vazio. Mundo falso era um mundo cinza, frio. O mundo dela era cheio de cores. E como era belo!
Contudo, tudo na vida tem um preço. O vazio do papel era preenchido por ela, ao mesmo tempo em que, sem saber, um abismo era aberto em torno de si.