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domingo, 19 de fevereiro de 2012

Ela gostava de brincar com palavras, como se houvesse um grande segredo oculto entre elas, apenas aguardando ser decifrado por quem se atrevesse o suficiente. Ela passava muito tempo sozinha em seu quarto, e não tinha muitos amigos. Vivia em companhia de seus livros, seus discos e seus sonhos.
Era capaz de passar horas em cima de livros, vivenciando narrativas de lugares longínquos e tempos há muito passados. Com seus discos, ela entrava em um mundo que os livros não lhe proporcionavam. Era um mundo completamente diferente, ao avesso - nada fazia sentindo, era apenas a musicalidade e a emoção da palavra. Tudo ali era uma questão de sensibilidade, de apreciação da loucura alheia.
Com seus sonhos, porém, a história era diferente. Seus sonhos não eram uma distração, mas sim uma forma de construção - de autoconstrução. Com seus sonhos ela descrevia olhares perdidos e palavras não ditas. Com seus sonhos ela inventava sua própria realidade - uma realidade cheia de cores, amores, fantasias e heroísmos. E ela escrevia. Não sabia explicar o que vinha primeiro, os sonhos ou as palavras. Só sabia que a cada palavra escrita, um novo pensamento parecia desabrochar dela. E, a cada pensamento, uma nova palavra. As palavras uniam-se ao pensamento e o sentido surgia. Era assim que uma nova história florescia, fluente, constante. Suas fantasias guiavam seu mundo, dentro e fora de sua mente. Era um mundo criado por ela mesma, porém não necessariamente falso. Mundo falso, para ela, era um mundo vazio. Mundo falso era um mundo cinza, frio. O mundo dela era cheio de cores. E como era belo!



Contudo, tudo na vida tem um preço. O vazio do papel era preenchido por ela, ao mesmo tempo em que, sem saber, um abismo era aberto em torno de si.

Quantas mentiras foram ditas ao pé do ouvido. Quantos beijos à meia noite e quantos corações partidos. Quantos atarefados senhores passaram apressadamente sem notarem o belíssimo sol que estava a se pôr. Quantos músicos entoaram canções apaixonadas, tiradas de algum lugar no fundo de suas almas. Quantas mães e seus filhos pararam para um descanso, e quantas reprimiram o comportamento destes. Quantos amantes e suas mãos entrelaçadas sentiram o florescer da primavera, como a quem sente o nascer de um primeiro amor. Quantos pedintes imploraram por moedas, lamentando o caminho que fez suas vidas levá-los até ali. Quantos senhores venderam sorvete às belas pequenas que procuravam por algum alívio no calor do verão. Quantos outros senhores observaram as pernas bem delineadas das moças que por ali também passaram. Quantos descansos, quantos afagos, quantos resmungos, quantas discussões, quantas rupturas, quantos beijos, quantos abraços, quantos sentimentos compartilhados. Quanta história. Quanta humanidade.