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sexta-feira, 11 de maio de 2012

Ela estava chorando. No banco do ônibus, do outro lado do corredor, chorando. E seus amigos, com quem sempre conversara até então, pareciam não se importar. Observei-la, perplexa. Seu olhar perdido, como se estivesse sozinha em meio à multidão, me lembravam das tantas vezes em que já me senti insignificante em bancos de ônibus e trens tumultuados. Suas lágrimas percorriam sua face pálida e delicada, seus olhos negros cintilavam, e eu queria abraçá-la e nunca mais a soltar.
Então, em um segundo, sem explicação, ela estava sentada ao meu lado. Deixando-me ainda mais perplexa, ignorou seus amigos e sentou-se próxima a mim. Senti palpitações, falta de ar, meu estômago deu saltos como se fosse criança novamente. Gostaria que ela soubesse que a conhecia um pouco, que todos os dias, quando me sentava sozinha, ouvia as conversas do banco ao lado. Gostaria de consolá-la, de lhe dizer que tudo ficaria  bem, que eu sabia o que era estar triste.
Foi ela quem falou primeiro. Perguntei o que lhe ocorrera. E ela não foi como todos, que disfarçam com um sorriso e dizem que tudo está bem. Ela me contou, e começou a chorar novamente. Conversamos durante a viagem, até que chegou a hora nos despedirmos. E soube que ela era especial. E soube que há muito não sentia que alguém era especial. Havia perdido minha fé nas pessoas, e ela  a resgatou um pouco, para mim. Gostaria de ter lhe falado o quanto sou sozinha, o quanto sou capaz de me impressionar. Porém, nada disso era necessário. Ela sorriu e meu coração palpitou, receoso, como se ela tivesse a capacidade de arrancá-lo e abrir nele todas as cicatrizes que já quase não apareciam. Voltei a sentir. Forte novamente, percebi o quão inútil era tentar fazer as pessoas mudarem. Reinventei, repensei, mudei por mim mesma. Encontro-me estável, não exatamente feliz, porém viva. Sinto. Palpito. Imagino possibilidades entre conversas e sorrisos cativantes.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Abutres


Olhares à espreita com uma taça nas mãos. Bebam, riam, saúdem, festejem. Comam da podridão da própria carne. Usem de suas línguas afiadas para rasgar um pouco mais. Um pouco mais, isso. Bebam champanhe enquanto o sangue jorra. Ou é sangue o que bebem? Sangue novo, jamais perdoariam. Nada foge aos seus olhares julgadores acobertados com
Sorrisos afáveis ao topo da escada. Empurrariam o que estivesse em seus caminhos. Esfacelariam o que fosse digno de ameaçá-los. As línguas de pontas cortantes esfacelariam-no. Então empurrem-no para o túmulo que cavaram especialmente para aquele cuja indignidade é pequena demais para o abismo em suas almas.

Empurrem-no. Agora cubram-no com terra.

E bebam mais champanhe.

Mesmo que rasgue, mesmo que queime, mesmo que sangre, mesmo que lembre, mesmo que atormente, mesmo que amedronte, mesmo que vicie, mesmo que corroa, mesmo que magoe, mesmo que envenene, mesmo que violente, que não me mate.


Porém já nascemos morrendo.

Eu nunca vou saber como ou porque nos separamos. Parecia tudo compatível, igual, e o que não era igual nós íamos completando. Agora parecemos pessoas diferentes. Acredito que você mudou, mas você insiste, quem mudou fui eu. E era assim, a gente falava da vida e ria, a gente se provocava, a gente se evoluía. Lia o que você escrevia e achava tudo certo, racional. Agora, cada linha soa estúpida. Mas ainda sinto um certo carinho pelo que você representou na minha vida. Você acrescentou algo, diferentemente da maioria das pessoas que conheci. Essa é a verdade - algumas pessoas passam por nós sem acrescentar nada, como aquele ex-namorado que odiamos, ou aquele que fez tudo por nós, mas ao mesmo tempo não fez nada. Algumas pessoas, porém, passam e mudam. E é por isso que ainda o amo. Amo-o pelas boas conversas, pelas ideias novas e pela leveza que sentia ao pensar nelas. Amo-o por ter ido se encontrar comigo na chuva, só porque eu estava triste. Amo-o por ter me abraçado quando chorei. Amo-o por me fazer perceber que o dinheiro ou o status não importam, contanto que façamos o certo. Amo-o por ter sido como eu, pois assim não fui a única a pensar demais, a idealizar demais. Amo-o por ter reinventado o mundo comigo. Amo-o por me lembrar disso até hoje, quando me sinto fraca. Amo-o por tudo o que foi. Por tudo o que me ensinou. Amo-o por tudo o que fui, e tudo o que serei. Amo-o mesmo que você não exista mais, mas apenas por ter, em algum momento, estado lá, em carne e osso, ao meu lado. Agora acredito naquela velha frase - você levou um pouco de mim e deixou um pouco de você. Talvez por isso nossa linha de pensamento se separou. Nossa linha se partiu em duas, para que pudéssemos conhecer mais, vivenciar mais, e deixá-las mais resistentes do que apenas tentando igualar o que já era o mesmo.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Meus olhos brasileiros sonhando exotismos.
Paris. A torre Eiffel alastrada de antenas como um caranguejo.
Os cais bolorentos de livros judeus
e a água suja do Sena escorrendo sabedoria.

O pulo da Mancha num segundo.
Meus olhos espiam olhos ingleses vigilantes nas docas.

Tarifas bancos fábricas trustes craques.
Milhões de dorsos agachados em colônias longínquas formam um tapete
para sua Graciosa Majestade Britânica pisar.
E a lua de Londres como um remorso.

Submarinos inúteis retalham mares vencidos.
O navio alemão cauteloso exporta dolicocéfalos arruinados.
Hamburgo, umbigo do mundo.
Homens de cabeça rachada cismam em rachar a cabeça dos outros
dentro de alguns anos.

A Itália explora conscienciosamente vulcões apagados,
vulcões que nunca estiveram acesos
a não ser na cabeça de Mussolini.
E a Suiça cândida se oferece
numa coleção de postais de altitudes altíssimas.

Meus olhos brasileiros se enjoam da Europa.

Não há mais Turquia
O impossível dos serralhos esfacela erotismos prestes a deslanchar.
Mas a Rússia tem as cores da vida
A Rússia é vermelha e branca.
Sujeitos com um brilho esquisito nos olhos criam o filme bolchevista
e no túmulo de Lenin em Moscou parece que um coração enorme
está batendo, batendo
mas não bate igual ao da gente...

Chega!
Meus olhos brasileiros se fecham saudosos.
Minha boca procura a "Canção do Exílio".
Como era mesmo a "Canção do Exílio"?
Eu tão esquecido de minha terra...
Ai terra que tem palmeiras
onde canta o sabiá!



(Europa, França e Bahia - Carlos Drummond de Andrade)

sábado, 31 de março de 2012

Ainda não sei o que é, mas algo em você me chamou a atenção. Talvez seja porque encontrei um pouco desse vazio meu em você. Talvez porque você vê o mundo do mesmo jeito bagunçado, falso, sujo que eu. Você procura distrações, procura se sedar, tenta matar o agora. Você sabe que o amanhã não existe. Talvez porque eu olhei para você e vi que você estava olhando para mim, como se conseguisse mesmo me ver. Talvez seja porque o meu nada, somado ao seu nada, possa ser alguma coisa.

Acordou sem ter certeza de onde estava. Olhou para o relógio na parede rabiscada com palavras obscenas. Cinco da manhã. A noite anterior era apenas fragmentos em sua memória. A última lembrança concreta era de ter tomado algumas pílulas. Depois disso, era apenas estupor. Ela sabia que havia rido, que havia visitado um lugar surreal, que havia se libertado do  vazio por algumas horas. O resto não importava.
Observou ao seu redor mais uma vez, tentando reconhecer o quarto estranho. A parede pichada contrastava com os móveis de estilo clássico e madeira colonial, empoeirados como se tivessem sido abandonados no mesmo lugar há dois séculos. Os lençóis abarrotados sob a cama de ferro denunciavam  seu uso. No carpete bege, um pó branco dava pistas do que havia acontecido na noite anterior. Ela olhou para o espelho rachado na penteadeira. Uma garota pálida, com olhos e cabelos muito negros a encarou com uma expressão assustada. Ligeiramente corrigiu a expressão. Era muito cedo para parecer tão fraca.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Ela gostava de brincar com palavras, como se houvesse um grande segredo oculto entre elas, apenas aguardando ser decifrado por quem se atrevesse o suficiente. Ela passava muito tempo sozinha em seu quarto, e não tinha muitos amigos. Vivia em companhia de seus livros, seus discos e seus sonhos.
Era capaz de passar horas em cima de livros, vivenciando narrativas de lugares longínquos e tempos há muito passados. Com seus discos, ela entrava em um mundo que os livros não lhe proporcionavam. Era um mundo completamente diferente, ao avesso - nada fazia sentindo, era apenas a musicalidade e a emoção da palavra. Tudo ali era uma questão de sensibilidade, de apreciação da loucura alheia.
Com seus sonhos, porém, a história era diferente. Seus sonhos não eram uma distração, mas sim uma forma de construção - de autoconstrução. Com seus sonhos ela descrevia olhares perdidos e palavras não ditas. Com seus sonhos ela inventava sua própria realidade - uma realidade cheia de cores, amores, fantasias e heroísmos. E ela escrevia. Não sabia explicar o que vinha primeiro, os sonhos ou as palavras. Só sabia que a cada palavra escrita, um novo pensamento parecia desabrochar dela. E, a cada pensamento, uma nova palavra. As palavras uniam-se ao pensamento e o sentido surgia. Era assim que uma nova história florescia, fluente, constante. Suas fantasias guiavam seu mundo, dentro e fora de sua mente. Era um mundo criado por ela mesma, porém não necessariamente falso. Mundo falso, para ela, era um mundo vazio. Mundo falso era um mundo cinza, frio. O mundo dela era cheio de cores. E como era belo!



Contudo, tudo na vida tem um preço. O vazio do papel era preenchido por ela, ao mesmo tempo em que, sem saber, um abismo era aberto em torno de si.

Quantas mentiras foram ditas ao pé do ouvido. Quantos beijos à meia noite e quantos corações partidos. Quantos atarefados senhores passaram apressadamente sem notarem o belíssimo sol que estava a se pôr. Quantos músicos entoaram canções apaixonadas, tiradas de algum lugar no fundo de suas almas. Quantas mães e seus filhos pararam para um descanso, e quantas reprimiram o comportamento destes. Quantos amantes e suas mãos entrelaçadas sentiram o florescer da primavera, como a quem sente o nascer de um primeiro amor. Quantos pedintes imploraram por moedas, lamentando o caminho que fez suas vidas levá-los até ali. Quantos senhores venderam sorvete às belas pequenas que procuravam por algum alívio no calor do verão. Quantos outros senhores observaram as pernas bem delineadas das moças que por ali também passaram. Quantos descansos, quantos afagos, quantos resmungos, quantas discussões, quantas rupturas, quantos beijos, quantos abraços, quantos sentimentos compartilhados. Quanta história. Quanta humanidade.