Ela estava chorando. No banco do ônibus, do outro lado do corredor, chorando. E seus amigos, com quem sempre conversara até então, pareciam não se importar. Observei-la, perplexa. Seu olhar perdido, como se estivesse sozinha em meio à multidão, me lembravam das tantas vezes em que já me senti insignificante em bancos de ônibus e trens tumultuados. Suas lágrimas percorriam sua face pálida e delicada, seus olhos negros cintilavam, e eu queria abraçá-la e nunca mais a soltar.
Então, em um segundo, sem explicação, ela estava sentada ao meu lado. Deixando-me ainda mais perplexa, ignorou seus amigos e sentou-se próxima a mim. Senti palpitações, falta de ar, meu estômago deu saltos como se fosse criança novamente. Gostaria que ela soubesse que a conhecia um pouco, que todos os dias, quando me sentava sozinha, ouvia as conversas do banco ao lado. Gostaria de consolá-la, de lhe dizer que tudo ficaria bem, que eu sabia o que era estar triste.
Foi ela quem falou primeiro. Perguntei o que lhe ocorrera. E ela não foi como todos, que disfarçam com um sorriso e dizem que tudo está bem. Ela me contou, e começou a chorar novamente. Conversamos durante a viagem, até que chegou a hora nos despedirmos. E soube que ela era especial. E soube que há muito não sentia que alguém era especial. Havia perdido minha fé nas pessoas, e ela a resgatou um pouco, para mim. Gostaria de ter lhe falado o quanto sou sozinha, o quanto sou capaz de me impressionar. Porém, nada disso era necessário. Ela sorriu e meu coração palpitou, receoso, como se ela tivesse a capacidade de arrancá-lo e abrir nele todas as cicatrizes que já quase não apareciam. Voltei a sentir. Forte novamente, percebi o quão inútil era tentar fazer as pessoas mudarem. Reinventei, repensei, mudei por mim mesma. Encontro-me estável, não exatamente feliz, porém viva. Sinto. Palpito. Imagino possibilidades entre conversas e sorrisos cativantes.